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Bolo de linha ou pontapé?

 Neste mundo globalizado, até as apostas esportivas estão na Internet e espalhadas pelos quatro cantos do planeta, volto um pouco no tempo após receber um recado do meu guru, José Maria de Aquino. Um e-mail interessante, no qual ele conta uma passagem ocorrida em Miracema, na década de 50, quando uma aposta não paga criou um problemão entre seus amigos do futebol.

O Zé fala sobre um bolo, aquele que já chamamos de pontapé, e que desde aquele longínquo tempo já era febre entre os moleques frequentadores das arquibancadas do estádio municipal ou entre aqueles que ouviam, no rádio, as transmissões do campeonato carioca de futebol.

Deixe o Zé Maria contar: “Jogo Vasco x Flamengo. Bolo de linha entre a molecada. Dez nomes em dez pedacinhos de papel. Caio com o Chico, gaúcho ponta esquerda do Vasco. Chance 0,001 de marcar, mas nada havia a fazer. E não é que deu? Vasco 1 a 0, gol de Chico. Procuro o professor para pegar minha grana. Surpresa: a aposta não valeu. A grana não viria para meu bolso. Explicação, dada por ele. "Ao marcar o gol o Chico estava correndo, deslocado pela meia", contou José Maria de Aquino.

Tá bem, meu caro guru, mas você não conheceu o Genuíno, filho do Olegário da Padaria, um baita craque de bola e apaixonado por uma aposta, seja ela um bolo de linha, um pontapé ou até mesmo a do pau a pau, onde você escolhe um adversário e deixa o outro para o parceiro, sem vantagem é claro. O Genuíno era terrível, e, muitas das vezes, sentava na arquibancada, entrava no bolo e no intervalo do jogo, geralmente um amistoso do Miracema FC, descia para o vestiário e se oferecia ao Polaca para entrar na partida.

Claro que o Jair aceitava, afinal era o grande craque da cidade e um artilheiro de qualidade indiscutível. Acontece, meu amigo Zé Maria, que o Genuíno só entrava na partida se fosse na vaga daquele cujo o número saiu com ele no sorteio do pontapé, ou bolo como queira. E no fim sempre vencia, pois o faro de gol do cara era realmente incrível.

Certa vez, na década de 60, o Esportivo jogava contra o Esperança, de Friburgo, e este escriba estava com a 11 titular e no ataque amarelinho tinha, além deste que vos fala, o Thiara (7), CacBá (9), Júlio (8) e Arani (10) e o Genuca tentou dar o mesmo golpe.

Foi ao vestiário, no intervalo, pediu ao Jaci para entrar e disse que o Seu Gérson deu ordem. O Jaci agradeceu e falou que precisava virar o jogo, perdíamos por 2x1, e deu a ele a 18 e falou para ele entrar no lugar do Wagner, na lateral esquerda.

“Entra lá no lugar do Vagner fale com o Gilson para jogar na lateral e faça com que o Arani jogue um pouco mais recuado, de volante. Você, Adilson e Cacá jogarão sempre na frente”, explicou pacientemente o Jaci Lopes, nosso treinador.

Genuíno pensou bastante e depois de dois minutos parado, escutando as instruções do Jaci, decidiu voltar para as arquibancadas e começou a gritar pelo meu nome, me incentivando e mandando todos os companheiros me encherem de bola a todo momento.

Ninguém entendia nada, mas eu dava gargalhadas junto com os moleques do Esportivo ouvindo o frustrado Genuíno gritando meu nome, afinal o papelzinho que ele estava nas mãos tinha o número 11 e o tal número naquela tarde era meu e por isto ele queria o meu lugar no início do segundo tempo.

O Jaci acreditou na turma e viramos novamente a partida e chegamos aos 3x2 com gols de... Não, eu não marquei, entrei sozinho na área e toquei de lado para a chegada do Cacá, para desespero do Genuíno, que teve que ver o Sebastião Amaral levar prá casa o tal bolo de linha.

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