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Você já foi um pão?

As redes sociais, nos dias atuais, estão mais para aborrecimentos do que divertimentos. Mas, vez ou outra, aparecem postagens interessantes — algumas cheias de charme, outras, como a que comento agora, inteligentes e divertidas. Pergunta o autor do texto: “Você já foi um pão?” E o que seria um “pão”? Explico. Eu, por exemplo, nunca fui chamado por este adjetivo — e aqui é adjetivo, sim senhor, sim senhora. “Pão”, naquele tempo, era o menino bonito, o rapaz vistoso, o sujeito com pinta de namorado certo para a garota que assim o chamava. Principalmente quando ele chegava perfumado — primeiro com Lancastar, porque Azzaro veio depois e já era perfume para os mais abastados — calçando um Vulcabrás e, nos dedos, um anel de brucutu. Aí, além de pão, virava um belo broto. Dançar nas garagens, naqueles bailinhos — disso já contei muito por aqui — era quase um ritual. E dançar ao som de uma Sonata, ouvindo Trini Lopez ou The Beatles , sem jamais cogitar deixar rolar Waldick Soriano ou Teixeir...
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Papo com amigos

Memórias da Terrinha Gosto quando um amigo me manda suas aventuras, suas histórias e personagens marcantes da nossa Miracema. Foi o que fez o amigo Augusto Cardoso, hoje longe da terrinha, exercendo a medicina lá em Santa Catarina. E, junto com suas lembranças, acabou despertando também as minhas. Uma delas me levou de volta até a divisão do terreno da nossa casa, que precisou ceder espaço para a construção de um posto de gasolina que, vejam só, continua de pé neste 2026. Quem viveu aquele período — creio que ali pelos anos 1960 — certamente vai se lembrar do Barriga, por muitos anos funcionário do posto. Em anexo funcionava a oficina de Wasinthon Torres e sua turma de coadjuvantes de luxo: o torneiro nota 20, Fisíco; o faz-tudo Jorge Garcia,  este o sempre lembrado Pela Égua, figura conhecida em toda a cidade e frequentador assíduo do Bar do Vicente. E já que entramos no assunto dos bares — e falando do bar do meu avô e também do Pela — que tal descer a rua, tomar duas no bar do F...

Viver e sonhar

  Por estes dias, depois de colocar no mundo o Miracema em Mim, vieram os debates — daqueles bons, que fazem a gente pensar com calma — sobre uma velha questão: viver do passado ou contar o passado? Há uma diferença grande entre as duas coisas. Viver do passado é como morar numa casa onde o relógio parou. É repetir lembranças até que o presente perca o lugar. Já contar o passado é diferente: é acender a luz da memória para iluminar o caminho que trouxe a gente até aqui. Eu, que me arrisco como cronista da vida, não teria o que contar se não tivesse vivido. Não invento enredos, não fabrico personagens. Não sou romancista. Sou desses que juntam pedaços de vida e espalham sobre o papel. O que escrevo carrega o peso e a leveza do que foi real — vivido por mim ou confiado a mim. Miracema não foi cenário. Foi chão. Durante 35 anos, vivi ali com intensidade de quem não passa — de quem fica, observa, participa. Estive em quase tudo. Vi de perto histórias da política, do esporte, da vida co...

Sob o céu de Paris

  Por que Paris chorou tanto no dia em que cheguei? Seria a presença incômoda de turistas — especialmente aqueles asiáticos que invadem praças e monumentos com flashes e lentes potentes? Não creio. Prefiro pensar que a cidade apenas quis mostrar que sua beleza não depende do sol. Sob tempestade, ela também encanta — talvez até mais. E foi assim que reencontrei Paris pela segunda vez. Uma chuva torrencial caía sobre a Cidade Luz — e não foi suficiente para fazer o grupo de brasileiros recuar. Nada de hotel, nada de refúgio em bar. A ordem era andar, molhar e viver. Refiz o city tour de 2008. E, como sempre acontece por lá, o repetido nunca é igual. Na primeira vez, o outono ensolarado iluminava tudo com delicadeza. Agora, sob a chuva, a cidade parecia outra — mais dramática, mais cinematográfica. A Torre Eiffel, então… ah, a Torre. Vista, fotografada e filmada sob chuva, parecia uma deusa indiferente ao tempo. Imponente. Bela. Intocável. A grande surpresa veio à noite, no Hotel Ibis...

A nuvem 3

 Crônica Humorística Lá em cima, a rapaziada anda com coceira nos pés. Saudade da bola, inveja da festa cá embaixo. Jair Polaca, sentado na sua nuvem com samba, mulatas e campinho particular, resolveu convocar Milton Cabeludo pra um “papo cabeça”. E pronto: começou a confusão. Cabeludo não foi sozinho, levou Beiçola e mais uns veteranos. No caminho, cataram Pernoca e Lauro, que estavam rondando a nuvem do Silvinho. Maninho, o velho observador, também foi arrastado. Polaca já ligava pro Gérson Coimbra, porque a coisa tava saindo do controle. Gérson chegou, botou ordem, mas queria Clarindo, que ninguém achava. A fofoca correu mais rápido que vento de verão: ia ter pelada! Pintinho chamou Nenenzinho, que avisou Edil, e pronto, virou romaria. Nenenzinho ainda queria brincar de “mulinha” e sair dançando, mas Cosme cortou: “Aqui é bola, samba é só no carnaval!”. Mocinho e Fota já estavam de prontidão. E os peladeiros foram chegando, sem chuteira, sem documento, só com vontade. Polaca rod...

A nuvem 2

 Ajuste sugerido A turma lá de cima parece sentir saudades da bola e inveja daqueles que ficaram por aqui fazendo festa neste final de ano. Sentado em sua nuvem particular, com mulatas, samba e um campinho improvisado, Jair Polaca mandou mensagem para Milton Cabeludo, convocando-o para um “papo cabeça” no seu cantinho. Cabeludo foi e levou Juarez Beiçola e outros contemporâneos. No caminho, encontraram Pernoca e Lauro, que rondavam a nuvem do Silvinho — este, por sua vez, tinha saído para visitar o pai, Maninho, que observava os craques chegando para conversar com São Pedro. Localizado, Maninho foi levado para a nuvem do Polaca, que já ligava para Gérson Coimbra, pois a coisa fugia do controle e precisava de organização. Seu Gérson chegou, botou ordem na casa e começou a delegar poderes, mas precisava da ajuda de Clarindo, ainda não encontrado. A notícia do encontro se espalhou rápido e os craques foram chegando para uma pelada triunfal. Pintinho, com seu passo tranquilo, chamou Ne...

Conversa de louco

 ABERTURA Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando de você… falando com você. E, mais do que isso, conversando contigo. Você, que durante tantos anos, me deu um punhado de alegrias. 1. O SILÊNCIO QUE SABIA Tristeza? Não. Nunca fiquei triste ao lado desse velho moço, que agora veste roupa nova e parece ter voltado à infância. Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, sonhando que um dia seria famoso, jogador de um grande time brasileiro… Você nunca respondeu. Mas o seu silêncio… já sabia de tudo. 2. OS QUE FIZERAM HISTÓRIA Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho — que cracaço! —, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo. Viu nascer a geração do Rink, liderada pelo incrível — e folclórico — Chiquinho Maracanã. Viu o Tupan, com meu velho pai, Zebinho, ao lado de Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros. E viu também esse menino teimoso sonhar alto demais. 3. O FIM DO SONHO (O...