O sol de domingo em Miracema, há seis décadas, não pedia licença para dourar os telhados. Ele chegava cedo, convidando a cidade para um ritual que se repetia com a precisão de um pêndulo. Se o hoje é marcado pelo estrépito do digital e a urgência dos dedos na tela, o ontem era medido pela cadência dos pés no calçamento e pelo girar lento das agulhas nos discos de 78 rotações. Lembro-me das manhãs dominicais. A voz de Dona Áurea conduzia o coral na igreja matriz, transformando a liturgia num concerto que enchia a alma antes mesmo do almoço. Terminada a "missa das oito", a cidade se transformava num cenário de teatro ensaiado. Os rapazes tomavam posição estratégica nos bancos do "Jardim de Baixo". Não era pressa, era galanteio: observavam o desfilar das moças em seus vestidos domingueiros, uma dança silenciosa de olhares e timidezes, sob a tutela vigilante daquela sociedade que via malícia no brilho de um olho, mas achava virtude na discrição. E havia a "Rua ...
A pergunta sobre a Rua Direita nunca foi, de fato, um dilema topográfico; sempre foi um exercício de memória e geometria do coração. Os versos de Luiz Carlos e Chiquinho, imortalizados por Os Originais do Samba, tinham esse poder: transformavam o asfalto poeirento ou o paralelepípedo reluzente do interior — seja na nossa Miracema, seja em qualquer esquina deste Brasil de ontem — em um palco infinito de encontros adiados. Na nossa juventude, a Rua Direita não era medida em metros, mas em intenções. Para quem subia, o lado direito era o palco das conquistas, a vitrine onde as certezas morriam e o nervosismo começava. Mas, se mudássemos o sentido, a própria estrutura do universo parecia se dobrar: quem descia via o mundo sob uma ótica invertida. O que era "o lado de lá" transformava-se, num passe de mágica física, em "o lado de cá". A dúvida existencial que os autores do samba deixaram no ar — afinal, onde fica o outro lado da Rua Direita? — é, na verdade, uma metáfor...