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Viver e sonhar

  Por estes dias, depois de colocar no mundo o Miracema em Mim, vieram os debates — daqueles bons, que fazem a gente pensar com calma — sobre uma velha questão: viver do passado ou contar o passado? Há uma diferença grande entre as duas coisas. Viver do passado é como morar numa casa onde o relógio parou. É repetir lembranças até que o presente perca o lugar. Já contar o passado é diferente: é acender a luz da memória para iluminar o caminho que trouxe a gente até aqui. Eu, que me arrisco como cronista da vida, não teria o que contar se não tivesse vivido. Não invento enredos, não fabrico personagens. Não sou romancista. Sou desses que juntam pedaços de vida e espalham sobre o papel. O que escrevo carrega o peso e a leveza do que foi real — vivido por mim ou confiado a mim. Miracema não foi cenário. Foi chão. Durante 35 anos, vivi ali com intensidade de quem não passa — de quem fica, observa, participa. Estive em quase tudo. Vi de perto histórias da política, do esporte, da vida co...
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Sob o céu de Paris

  Por que Paris chorou tanto no dia em que cheguei? Seria a presença incômoda de turistas — especialmente aqueles asiáticos que invadem praças e monumentos com flashes e lentes potentes? Não creio. Prefiro pensar que a cidade apenas quis mostrar que sua beleza não depende do sol. Sob tempestade, ela também encanta — talvez até mais. E foi assim que reencontrei Paris pela segunda vez. Uma chuva torrencial caía sobre a Cidade Luz — e não foi suficiente para fazer o grupo de brasileiros recuar. Nada de hotel, nada de refúgio em bar. A ordem era andar, molhar e viver. Refiz o city tour de 2008. E, como sempre acontece por lá, o repetido nunca é igual. Na primeira vez, o outono ensolarado iluminava tudo com delicadeza. Agora, sob a chuva, a cidade parecia outra — mais dramática, mais cinematográfica. A Torre Eiffel, então… ah, a Torre. Vista, fotografada e filmada sob chuva, parecia uma deusa indiferente ao tempo. Imponente. Bela. Intocável. A grande surpresa veio à noite, no Hotel Ibis...

A nuvem 3

 Crônica Humorística Lá em cima, a rapaziada anda com coceira nos pés. Saudade da bola, inveja da festa cá embaixo. Jair Polaca, sentado na sua nuvem com samba, mulatas e campinho particular, resolveu convocar Milton Cabeludo pra um “papo cabeça”. E pronto: começou a confusão. Cabeludo não foi sozinho, levou Beiçola e mais uns veteranos. No caminho, cataram Pernoca e Lauro, que estavam rondando a nuvem do Silvinho. Maninho, o velho observador, também foi arrastado. Polaca já ligava pro Gérson Coimbra, porque a coisa tava saindo do controle. Gérson chegou, botou ordem, mas queria Clarindo, que ninguém achava. A fofoca correu mais rápido que vento de verão: ia ter pelada! Pintinho chamou Nenenzinho, que avisou Edil, e pronto, virou romaria. Nenenzinho ainda queria brincar de “mulinha” e sair dançando, mas Cosme cortou: “Aqui é bola, samba é só no carnaval!”. Mocinho e Fota já estavam de prontidão. E os peladeiros foram chegando, sem chuteira, sem documento, só com vontade. Polaca rod...

A nuvem 2

 Ajuste sugerido A turma lá de cima parece sentir saudades da bola e inveja daqueles que ficaram por aqui fazendo festa neste final de ano. Sentado em sua nuvem particular, com mulatas, samba e um campinho improvisado, Jair Polaca mandou mensagem para Milton Cabeludo, convocando-o para um “papo cabeça” no seu cantinho. Cabeludo foi e levou Juarez Beiçola e outros contemporâneos. No caminho, encontraram Pernoca e Lauro, que rondavam a nuvem do Silvinho — este, por sua vez, tinha saído para visitar o pai, Maninho, que observava os craques chegando para conversar com São Pedro. Localizado, Maninho foi levado para a nuvem do Polaca, que já ligava para Gérson Coimbra, pois a coisa fugia do controle e precisava de organização. Seu Gérson chegou, botou ordem na casa e começou a delegar poderes, mas precisava da ajuda de Clarindo, ainda não encontrado. A notícia do encontro se espalhou rápido e os craques foram chegando para uma pelada triunfal. Pintinho, com seu passo tranquilo, chamou Ne...

Conversa de louco

 ABERTURA Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando de você… falando com você. E, mais do que isso, conversando contigo. Você, que durante tantos anos, me deu um punhado de alegrias. 1. O SILÊNCIO QUE SABIA Tristeza? Não. Nunca fiquei triste ao lado desse velho moço, que agora veste roupa nova e parece ter voltado à infância. Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, sonhando que um dia seria famoso, jogador de um grande time brasileiro… Você nunca respondeu. Mas o seu silêncio… já sabia de tudo. 2. OS QUE FIZERAM HISTÓRIA Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho — que cracaço! —, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo. Viu nascer a geração do Rink, liderada pelo incrível — e folclórico — Chiquinho Maracanã. Viu o Tupan, com meu velho pai, Zebinho, ao lado de Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros. E viu também esse menino teimoso sonhar alto demais. 3. O FIM DO SONHO (O...

Dia do Padroeiro

  No sábado, 6 de agosto, enquanto rolava a Corrida de São Salvador, na nossa intrépida Formosa, em Campos dos Goytacazes, sentado estava com a turma do Armazém, lá na Pracinha do Sossego, no quiosque do Eraldo, quando Motta me perguntou:  - Você chegou a conhecer o Bar do Romeu, aqui nas proximidades, onde se fazia o melhor bife de Campos?  Disse que não, mas gostaria de ter conhecido e saboreado o famoso bife e feito comparações com o nosso, lá da minha Miracema, famoso Bife do Farid, elogiado por dez entre dez estrelas vencedoras e cabeças brilhantes da cidade.  E aí me lembrei do velho e saudoso amigo, Irajá Carneiro, que sempre me falava quando me via. "Gosto de ir a Miracema para comer em pa..." Eu entendia que era para comer empada e ficava matutando, pensando comigo mesmo: Onde tem empada tão deliciosa assim, em Miracema, para o Irajá lembrar disto todas as vezes que me vê?  A resposta veio bem depois, cerca de dez anos após minha chegada a cidade e, fel...

Cachaça

  Ontem eu vi um documentário, em dos canais da Globosat, falando da cachaça, que virou mania entre os brasileiros modernos, e sobre onde encontrar aquela "boa". Seja branquinha ou amarela, seja forte ou suave a cachaça tomou o coração do rico, pobre, remediado, homem ou mulheres.  Em Miracema, no tempo em que fui ajudante de meu avô e meu pai, no bar em frente a prefeitura, conheci várias marcas e, principalmente, a nossa genuína Maravilhosa, fabricada pelo Homero Costa, em sua fazenda, que marcou época e até hoje ainda encontramos alguns litros remanescentes nas mãos do filho  do seu Homero, Antonio Carlos Pascotto da Costa, o Toninho Veterinário.  Guarda Chuva de Pobre, a pinga mais vendida e mais popular nos anos 60,  vinha lá de São Sebastião do Alto, e a Manitu, forte e temida pelos novatos, vinha de Santo Antônio de Pádua, não tenho na memória nomes famosos da região, mas estas três marcas eram as mais vendidas em todos os botecos da cidade e fazia a fest...