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Conto / Carlos Augusto

  O sol de domingo em Miracema, há seis décadas, não pedia licença para dourar os telhados. Ele chegava cedo, convidando a cidade para um ritual que se repetia com a precisão de um pêndulo. Se o hoje é marcado pelo estrépito do digital e a urgência dos dedos na tela, o ontem era medido pela cadência dos pés no calçamento e pelo girar lento das agulhas nos discos de 78 rotações. Lembro-me das manhãs dominicais. A voz de Dona Áurea conduzia o coral na igreja matriz, transformando a liturgia num concerto que enchia a alma antes mesmo do almoço. Terminada a "missa das oito", a cidade se transformava num cenário de teatro ensaiado. Os rapazes tomavam posição estratégica nos bancos do "Jardim de Baixo". Não era pressa, era galanteio: observavam o desfilar das moças em seus vestidos domingueiros, uma dança silenciosa de olhares e timidezes, sob a tutela vigilante daquela sociedade que via malícia no brilho de um olho, mas achava virtude na discrição. E havia a "Rua ...
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Conto /Rua Direita

 A pergunta sobre a Rua Direita nunca foi, de fato, um dilema topográfico; sempre foi um exercício de memória e geometria do coração. Os versos de Luiz Carlos e Chiquinho, imortalizados por Os Originais do Samba, tinham esse poder: transformavam o asfalto poeirento ou o paralelepípedo reluzente do interior — seja na nossa Miracema, seja em qualquer esquina deste Brasil de ontem — em um palco infinito de encontros adiados. Na nossa juventude, a Rua Direita não era medida em metros, mas em intenções. Para quem subia, o lado direito era o palco das conquistas, a vitrine onde as certezas morriam e o nervosismo começava. Mas, se mudássemos o sentido, a própria estrutura do universo parecia se dobrar: quem descia via o mundo sob uma ótica invertida. O que era "o lado de lá" transformava-se, num passe de mágica física, em "o lado de cá". A dúvida existencial que os autores do samba deixaram no ar — afinal, onde fica o outro lado da Rua Direita? — é, na verdade, uma metáfor...

Conto /Menina de Trança

 O calor em Campos dos Goytacazes, nesta segunda-feira, não pedia apenas um ventilador no máximo; pedia uma trilha sonora que fosse, ao mesmo tempo, um refúgio e uma lembrança. Enquanto o ar parado e denso pairava sobre a cidade, abri minha playlist, não por acaso, mas por um convite da saudade que mora no peito, para ouvir a voz que moldou parte da minha alma. Às vezes, as pessoas olham para quem ouve a Jovem Guarda com certa condescendência, quase um sorriso irônico que sussurra "lá vem ele com esses Sonhos de Palhaço". Pouco importa. Para quem conhece, Antônio Marcos não era apenas um cantor; ele era o tradutor de um certo estado de melancolia agridoce que, contraditoriamente, nos faz sentir muito vivos. A tarde, em sua letargia habitual, me fez flutuar naquela pergunta suspensa: Por quem chora a Tarde?. Será pelo sol que se esconde em Campos, ou pelas escolhas que, com o passar dos anos, aprendemos a fazer? Enquanto o pensamento corria, revisitei a imagem de um jovem na i...

Conto / Cidades irmãs

  O sol daquela tarde de despedida em Campos parecia reluzir com uma nostalgia antecipada. Zé Boquinha, figura mítica das quadras, encerrava seu ciclo à frente do basquete do Automóvel Clube, mas não partiria de mãos vazias para quem ficava. Com um sorriso de quem sabe o peso de uma memória, estendeu-me um CD: Sabad’o , de Sérgio Augusto Sarapo. “Isso é para você”, disse. Ele não fazia ideia do estopim que estava acendendo. Abri a capa ainda ali, com o Zé ao lado. Enquanto as primeiras notas de Sabad’o ecoavam no ambiente, meus olhos corriam pelas letras impressas no encarte. O que eu lia não eram meras palavras; era uma espécie de cartografia sentimental. À medida que a voz de Sarapo entoava sobre Santa Bárbara do Oeste, uma geografia particular, a minha própria, brotava em cena: Miracema. O Zé Boquinha me olhava, perplexo, conforme eu tecia comparações quase espirituais entre os relatos do autor e os pedaços da minha infância. Não demorou para que aquele disco virasse o centro...

Conto / Parque de diversões

 A noite caía sobre Miracema com aquele frescor nostálgico que só as cidades de interior parecem guardar no DNA. Na minha sala, o vinil mental girava sem parar enquanto conversava com o Marco Aurélio Motta. Entre um gole e outro, o papo flutuou de volta para os anos 1970, aquela era de ouro onde ele, com seu porte elegante nos salões do Automóvel Clube Fluminense, e eu, tentando a sorte nos bailes do Grêmio do Nossa Senhora das Graças, formávamos uma geração que batia sola de sapato ao som de Elvis, Beatles e Roberto Carlos. Mas a nossa conversa deu uma volta peculiar quando a playlist "Músicas de Parque de Diversões" começou a rolar no Spotify. Marco me olhou curioso. Não era apenas música; era a trilha sonora de um tempo em que um sonho "pousava" em Miracema e se instalava na praça, bem em frente ao colégio na Avenida Nilo Peçanha. Para o jovem que eu era, aquilo não era apenas um parque; era a minha central de comando. Naquelas cabines de som rústicas, sob luzes ...

Conto -Dueto com doutor

 O fim da tarde trouxe consigo uma melodia inesperada. Eram quase cinco horas, aquele momento em que a luz do dia começa a se render ao crepúsculo, quando o som atravessou as paredes e invadiu meu tempo: um vizinho, lá na sua alcova de azulejos, soltava a voz com um entusiasmo quase juvenil.  Ele cantava. E quem canta no chuveiro, convenhamos, deixa transbordar uma alegria que o resto do dia tentou segurar. O vapor da água, o eco dos azulejos e a desinibição do sabonete compõem o palco perfeito para o maior artista que cada um de nós abriga no banheiro. Sorri, recordando os meus tempos. Eu fui, por muitos anos, um legítimo barítono de encanamento. Do repertório romântico e profundo de Cauby Peixoto à cadência sentimental de Carlos Alberto, passando, é claro, pelo samba honesto e de raiz do mestre Noite Ilustrada. Não sei se meus vizinhos me adoravam ou apenas tinham uma paciência digna de santos, mas nunca ouvi reclamação. E, curiosamente, vejo que hoje a música em minha casa ...

Conto-A nuvem do Polaca

 Lá em cima, o ar era diferente. A neblina tinha um tom dourado de fim de tarde de dezembro e, nas nuvens mais altas, pairava uma saudade palpável, um perfume de grama cortada que trazia de volta o barulho da arquibancada e a magia de um domingo de pelada. Lá embaixo, na Terra, o pessoal ainda comemorava as festas, brindava e fazia barulho; um contraste que feria a nostalgia dos veteranos do escrete celestial. Jair Polaca, o anfitrião, estava deitado em sua nuvem particular. Ali não faltava nada: o samba corria solto, o cenário era de uma praia eterna e ele até mantinha um campinho particular, bem demarcado, só esperando a redonda rolar. Sentindo que a turma estava com saudades, ele sacou o celestial aparelho e disparou o chamado para Milton Cabeludo: "A coisa vai ferver por aqui, preciso de um papo cabeça no meu cantinho". Cabeludo, figura central da crônica boleira, atendeu sem pestanejar. Em sua carona subiram Juarez Beiçola e outros daquela estirpe. Pelo caminho, não pude...