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Cinquenta anos em cinco horas

 Um hiato de praticamente cinco décadas foi interrompido na noite de sexta-feira (13 de janeiro), na cidade de Nova Lima/MG, quando meu velho e querido companheiro Antonio de Padua Bastos Souto resolveu botar fim neste jejum de encontros e de papo. 

Antônio soube, através de seu primo Zé Souto, que eu estaria em sua  cidade neste período e me ligou, insistentemente, exigindo que eu fosse a sua casa para um lanche e para cinco dedos de prosa, realmente um dedinho apenas, como dizem os mineiros, não seria suficiente para colocar a casa em ordem e contarmos para sua esposa, Gecilda, tudo aquilo que vivemos nos anos 60 lá na nossa terrinha. 

Lembramos dos bailinhos das varandas, do medo dos amigos quando chegavam na casa das namoradas, sem os "sogros" saberem, certo Dia Faver? Contamos as aventuras pelas ruas da cidade ao lado dos amigos motorizados, das boas loucuras juvenis e dos bailes maiores, nos Grêmios dos colégios Miracemense e Nossa Senhora das Graças. 

Passeamos por várias fazendas de Miracema e Palma, nadamos pelo Ribeirão Santo Antônio e pelos açudes das fazendas, corremos atrás de bola no Rink e no Ginásio, relembramos os amigos de Pádua e Miracema, que viveram este áureo período de nossas vidas e choramos a perda de um punhado destes. 

Gecilda era só ouvidos, ela, como uma boa e querida visitante constante em Miracema, ouvia atentamente enquanto preparava um pão de queijo, que matou minha fome, acompanhado de uma gostosa pasta, ambos feitos pela exímia chefe de cozinha, e demos, eu e Antônio, o veredicto de uma feijoada que preparava para o dia seguinte, encomenda de uma família vizinha costumas degustadora de suas delícias. 

Vivemos em cinco horas, cheguei por lá às cinco da tarde e saí beirando as dez da noite, andamos pelos sítios e fazendas com uma rapidez incrível e lembramos de praticamente todos os nossos bons momentos e de nossos grandes amigos, que não serão citados nominalmente nesta prosa para não cometer a injustiça pelo esquecimento momentâneo de um destes que foram citados na mesa de Antônio, em Nova Lima. 

Hoje, passados cinquenta anos daqueles tempos dourados, o que nos resta são as restaurações no coração, nós dois somamos dez entre mamárias e safenas colocadas, pressão alta, artérias entupidas e outras cositas mais, nos resta reconhecer que o tempo passa mas a amizade verdadeira, mesmo que não haja continuidade de encontros, não morre e, como sempre digo, quando queremos viver de verdade e eternamente, este tipo de prosa deve ser uma constante entre todos nós. 

Obrigado, Antônio de Pádua e Gecilda, pelas horas por aí vividas intensamente e me perdoe por não poder voltar no sábado, para degustar a deliciosa feijoada, afinal o tempo perto da filha, neta e genro, na capital dos mineiros, é curto e preciso viver cada minuto como se fosse o último, mas tenha certeza de que outros encontros virão e com a adesão de outros miracemenses ou amigos de Miracema, que por ventura estejam por aí. 

Vivi cinco horas como se fossem cinquenta anos e ficou o gostinho de quero mais. Valeu, amigos "mineiros" Antônio e Gecilda pela hospitalidade digna deste povo maravilhoso das Minas Gerais. 

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