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Sob o céu de Paris

 Por que Paris chorou tanto no dia em que cheguei?

Seria a presença incômoda de turistas — especialmente aqueles asiáticos que invadem praças e monumentos com flashes e lentes potentes? Não creio. Prefiro pensar que a cidade apenas quis mostrar que sua beleza não depende do sol. Sob tempestade, ela também encanta — talvez até mais.

E foi assim que reencontrei Paris pela segunda vez. Uma chuva torrencial caía sobre a Cidade Luz — e não foi suficiente para fazer o grupo de brasileiros recuar. Nada de hotel, nada de refúgio em bar. A ordem era andar, molhar e viver.

Refiz o city tour de 2008. E, como sempre acontece por lá, o repetido nunca é igual. Na primeira vez, o outono ensolarado iluminava tudo com delicadeza. Agora, sob a chuva, a cidade parecia outra — mais dramática, mais cinematográfica.

A Torre Eiffel, então… ah, a Torre.

Vista, fotografada e filmada sob chuva, parecia uma deusa indiferente ao tempo. Imponente. Bela. Intocável.

A grande surpresa veio à noite, no Hotel Ibis Bastille. Sentados ao nosso lado no jantar, dois casais puxam conversa:

— Conheço você de algum lugar. De onde vocês são?

— Campos, interior do Rio. E vocês?

— Então é isso! Vejo sempre sua foto no Diário!

Pronto. Paris, naquele instante, virou Campos.

E o mundo, que já é pequeno, encolheu mais um pouco.

Dali nasceu uma nova dupla para o grupo — ou melhor, uma nova sintonia. E vieram passeios juntos, risadas compartilhadas e aquela sensação boa de encontrar “os seus” do outro lado do oceano.

Voltamos ao Museu do Louvre, caminhamos sem pressa pelas ruas e, numa manhã ensolarada — porque Paris também sabe pedir desculpas — seguimos mapas e placas até a Catedral de Notre-Dame, erguida desde 1163 em homenagem à Nossa Senhora.

Aos poucos, o grupo ia se formando de verdade. Nada de títulos, nada de formalidade. Era Carlos, Fábio, gente comum com histórias grandes. O ônibus, guiado pela espanhola Beatriz e conduzido por Paco, virou quase uma extensão de casa.

E que grupo. Pontual, leve, parceiro. Dez dias de convivência que começaram ali e terminariam na Alemanha — com frio, estrada e boas histórias.

Os sete graus médios não atrapalharam. Pelo contrário. Para brasileiro em viagem, frio também é atração.

Repeti roteiros antigos, mas fiz algo novo: subi a Torre Eiffel. Vi Paris do alto — e entendi por que ela é tão cantada. Depois, fiz o que todo europeu leva a sério: sentei em um café, pedi um expresso e fiquei ali, sem pressa, como se o tempo tivesse sido inventado só para aquele momento.

Você acha que a chuva continuou?

Nada. Três dias claros, limpos, quase um pedido de desculpas da cidade.

E em um desses momentos, veio à cabeça Édith Piaf, com sua voz eterna em “Sous le ciel de Paris”.

Porque, no fim das contas, ela estava certa:

Sob o céu de Paris… caminham os apaixonados.

E, pelo visto, mesmo debaixo de chuva, eles continuam caminhando.

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