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Conversa de louco

 ABERTURA

Cara… quando eu te conheci, mal sabia falar direito. Chegava aqui pelas mãos do Nijel ou do Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando de você… falando com você.

E, mais do que isso, conversando contigo.

Você, que durante tantos anos, me deu um punhado de alegrias.

1. O SILÊNCIO QUE SABIA

Tristeza? Não. Nunca fiquei triste ao lado desse velho moço, que agora veste roupa nova e parece ter voltado à infância.

Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, sonhando que um dia seria famoso, jogador de um grande time brasileiro…

Você nunca respondeu.

Mas o seu silêncio… já sabia de tudo.

2. OS QUE FIZERAM HISTÓRIA

Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho — que cracaço! —, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo.

Viu nascer a geração do Rink, liderada pelo incrível — e folclórico — Chiquinho Maracanã.

Viu o Tupan, com meu velho pai, Zebinho, ao lado de Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros.

E viu também esse menino teimoso sonhar alto demais.

3. O FIM DO SONHO (OU O COMEÇO DA VIDA)

Você acertou, meu camarada.

O futebol foi sério até o início dos anos 70.

Depois disso… virou luta.

Luta pra viver. Pra sobreviver. Pra ser feliz em outros campos.

4. O VELHO QUE NÃO CAI

Você está velho. Ninguém sabe sua idade — talvez o José Maria de Aquino saiba.

Mas o tempo te fez bem.

Muitos se foram… e você continua aí.

De pé.

Firme.

Como um touro.

5. CRAQUES QUE MORAM NA MEMÓRIA

Você viu jogadores que hoje seriam chamados de fenômenos.

Silvinho. Braizinho. Frederico. Edil. Ademir. Júlio. Chiquinho.

E o Vasquinho… criado por Edson e Clarindo.

Eles brilharam numa época em que o futebol brasileiro era coisa de deuses.

E ficaram por aqui… fazendo história no nosso chão.

6. A VOZ DO RÁDIO

Ali em cima, na laje dos vestiários, começamos a falar contigo pelo rádio.

Talvez não tenhamos sido os primeiros… mas fomos os que te espalharam pela região.

Eu, Zé Luís da Silva, Chico David, Fernando Nascimento, Paulo Joel e Wellington Ronzê.

E, meu amigo… nós te colocamos no mapa.

Arquibancada cheia.

Copa Noroeste.

História viva.

7. SAUDADE TEM SOM

Saudade?

Claro que dá.

E eu sei que você também sente.

8. O DIA EM QUE TE DESTRUÍRAM

Aquele gramado…

Destruído por uma Exposição Agropecuária, em 1964.

Uma revolução.

Teve briga, teve discussão… mas também teve propósito.

E virou sucesso.

9. O QUE O TEMPO LEVOU

Quando saí daqui, em 85, achei que tinha plantado uma semente.

Mas o Maninho se foi…

E com ele, muitas esperanças.

10. O DIA EM QUE O MUNDO VEIO ATÉ NÓS

Mas ninguém tira da memória aquele espetáculo dos anos 60.

O Flamengo aqui.

Gerson, Beirute, Germano — ainda meninos.

Do outro lado, uma seleção miracemense com Ademir Menezes.

Tudo graças ao Jofre Salim.

Foi mágico.

E eterno.

11. O POLACA É ETERNO

E o Polaca…

Ah, o Polaca.

Talvez o maior futeboleiro da cidade.

Merecia um busto logo na entrada.

Não só pela bola…

Mas pelo amor.

12. A PERGUNTA QUE NÃO DEVE SER RESPONDIDA

Você me provoca:

— Quem foram os melhores?

E eu quase respondo.

Mas parece que escuto sua voz:

— Tem gente demais boa nessa história… citar alguns é esquecer outros.

E você está certo.

13. O SONHO QUE AINDA FICA

Um dia…

Todos estarão ali.

Na galeria.

Na entrada.

Onde merecem.

DESPEDIDA

Vou indo…

Já é tarde.

Daqui a pouco chega gente e vão dizer que enlouqueci.

Alguns já dizem.

Mas, se me virem conversando contigo…

aí não tem mais jeito.

FINAL

Um abraço, meu velho e bom amigo.

Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros.

Eu pensava que estava falando sozinho…

quando ouvi um sussurro:

— Vá com Deus, Penacho.

Aí…

eu chorei.

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