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Viver e sonhar

 Por estes dias, depois de colocar no mundo o Miracema em Mim, vieram os debates — daqueles bons, que fazem a gente pensar com calma — sobre uma velha questão: viver do passado ou contar o passado?

Há uma diferença grande entre as duas coisas. Viver do passado é como morar numa casa onde o relógio parou. É repetir lembranças até que o presente perca o lugar. Já contar o passado é diferente: é acender a luz da memória para iluminar o caminho que trouxe a gente até aqui.

Eu, que me arrisco como cronista da vida, não teria o que contar se não tivesse vivido. Não invento enredos, não fabrico personagens. Não sou romancista. Sou desses que juntam pedaços de vida e espalham sobre o papel. O que escrevo carrega o peso e a leveza do que foi real — vivido por mim ou confiado a mim.

Miracema não foi cenário. Foi chão. Durante 35 anos, vivi ali com intensidade de quem não passa — de quem fica, observa, participa. Estive em quase tudo. Vi de perto histórias da política, do esporte, da vida comum que, no fim, é a mais extraordinária de todas. Era ali que as coisas aconteciam — e eu estava lá.

E minhas viagens… ah, essas não ficaram na imaginação. Foram caminhos percorridos, emoções sentidas, sonhos que criaram corpo. Vivi cada uma delas com a consciência de quem realiza.

Por isso, concordo com o eterno Belchior: viver é melhor que sonhar. Porque, no fim das contas, o que a gente vive é o que fica — e é disso que são feitas as boas histórias.

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