O sol de domingo em Miracema, há seis décadas, não pedia licença para dourar os telhados. Ele chegava cedo, convidando a cidade para um ritual que se repetia com a precisão de um pêndulo. Se o hoje é marcado pelo estrépito do digital e a urgência dos dedos na tela, o ontem era medido pela cadência dos pés no calçamento e pelo girar lento das agulhas nos discos de 78 rotações.
Lembro-me das manhãs dominicais. A voz de Dona Áurea conduzia o coral na igreja matriz, transformando a liturgia num concerto que enchia a alma antes mesmo do almoço. Terminada a "missa das oito", a cidade se transformava num cenário de teatro ensaiado. Os rapazes tomavam posição estratégica nos bancos do "Jardim de Baixo". Não era pressa, era galanteio: observavam o desfilar das moças em seus vestidos domingueiros, uma dança silenciosa de olhares e timidezes, sob a tutela vigilante daquela sociedade que via malícia no brilho de um olho, mas achava virtude na discrição.
E havia a "Rua Direita", o coração pulsante daquele microcosmo. À noite, quando o bom Seu Tinoco decidia que a engenharia de tráfego da modernidade não era bem-vinda, a rua ganhava contornos de passarela. Os passos ali, contudo, traçavam linhas invisíveis. A calçada da Chevrolet exibia o brilho dos moços de família, enquanto a calçada da Farmácia do Dr. Moacir fervilhava com a cultura negra e mestiça — um tempo onde a segregação era feita à moda mineira: um preconceito que não ousava gritar, mas sussurrava na forma de fronteiras tácitas que eu, na inocência da menção aos jogos, mal entendia.
Eu e o Ló, contudo, éramos dois intrusos na cartilha dos adultos. Íamos onde o coração pulsava mais forte. Defronte à Prefeitura, a batida seca e hipnótica dos "caxambus" não perguntava a cor de quem entrava na roda. Aquilo era eletricidade pura. Enquanto o mundo oficial da cidade parecia engomado, o ritmo que descia dos morros trazia a terra quente da África, um chão que a gente não apenas pisava, mas respeitava.
O prazer, em Miracema, era um artesanato. Nossos "clubes" de natação eram o silvestre: o ribeirão acima da Usina, a clareza da Lagoa Preta ou as curvas na casa da Da. Nunciata. Água viva, sem cloro, que exigia mergulhos ousados e o medo delicioso das surpresas da correnteza. Depois, o "Cine Sete". Que santuário! Encarar o Buru e o Carlinhos na entrada do cinema não era um confronto, era um rito de passagem para alcançar as aventuras de Flash Gordon ou o grito clássico de Tarzan. Pagávamos o ingresso com o suor da esperteza infantil.
O cenário era embalado pela voz de ouro de Ângela Maria, que, do alto-falante da "Ao Rei dos Barateiros", distribuía Babalu como um hino nacional miracemense. Era a trilha sonora perfeita para a "Furiosa", a banda da cidade, que garantia que até o cansaço das madrugadas fosse adornado com uma nota musical.
Hoje, quando fecho os olhos, as imagens ficam nítidas, mas distantes, como uma fotografia cujas cores estão começando a esmaecer nas bordas. Tudo mudou, as piscinas secaram o encanto do poço, os bailes perderam a geometria da elegância, e a rua foi tomada pela pressa que não sabe ouvir o rádio. Mas ainda escuto, nalgum recanto da memória, o estalar do disco de cera rodando o sucesso da hora.
Foi um tempo lindo, não porque era melhor, mas porque era nosso, era puro na sua simplicidade de ser pequeno. Um tempo em que Miracema inteira parecia, enfim, estar dentro de um sonho. Viva a Miracema que ainda habita, imortal, nas nossas lembranças.
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