O sol de domingo em Miracema, há seis décadas, não pedia licença para dourar os telhados. Ele chegava cedo, convidando a cidade para um ritual que se repetia com a precisão de um pêndulo. Se o hoje é marcado pelo estrépito do digital e a urgência dos dedos na tela, o ontem era medido pela cadência dos pés no calçamento e pelo girar lento das agulhas nos discos de 78 rotações. Lembro-me das manhãs dominicais. A voz de Dona Áurea conduzia o coral na igreja matriz, transformando a liturgia num concerto que enchia a alma antes mesmo do almoço. Terminada a "missa das oito", a cidade se transformava num cenário de teatro ensaiado. Os rapazes tomavam posição estratégica nos bancos do "Jardim de Baixo". Não era pressa, era galanteio: observavam o desfilar das moças em seus vestidos domingueiros, uma dança silenciosa de olhares e timidezes, sob a tutela vigilante daquela sociedade que via malícia no brilho de um olho, mas achava virtude na discrição. E havia a "Rua ...
Papo de viagens, causos da "terrinha" e histórias da vida.