O sol daquela tarde de despedida em Campos parecia reluzir com uma nostalgia antecipada. Zé Boquinha, figura mítica das quadras, encerrava seu ciclo à frente do basquete do Automóvel Clube, mas não partiria de mãos vazias para quem ficava. Com um sorriso de quem sabe o peso de uma memória, estendeu-me um CD: Sabad’o, de Sérgio Augusto Sarapo. “Isso é para você”, disse. Ele não fazia ideia do estopim que estava acendendo.
Abri a capa ainda ali, com o Zé ao lado. Enquanto as primeiras notas de Sabad’o ecoavam no ambiente, meus olhos corriam pelas letras impressas no encarte. O que eu lia não eram meras palavras; era uma espécie de cartografia sentimental. À medida que a voz de Sarapo entoava sobre Santa Bárbara do Oeste, uma geografia particular, a minha própria, brotava em cena: Miracema. O Zé Boquinha me olhava, perplexo, conforme eu tecia comparações quase espirituais entre os relatos do autor e os pedaços da minha infância.
Não demorou para que aquele disco virasse o centro de gravidade de um novo encontro. Reuni os amigos da “velha guarda”, homens que, como eu e José Roberto Lux, ostentam o selo da geração 50/60 no peito. Pus o CD para rodar novamente e a sala virou uma máquina do tempo.
— Estão vendo isso aqui? — eu apontava para a letra de Pharmácia. — Onde se lê “farmácia” e “igreja”, eu vejo o jardim da nossa terra. E onde o Sarapo canta o bar do Bachim, eu fecho os olhos e vejo o bar do meu saudoso pai, o Zebinho.
A cada faixa, o espanto coletivo aumentava. Quando a melodia falava de encontros, fui levado até a sorveteria do Abdo, lá em casa. Cheguei a peregrinar até a Sorveteria Popeye, em Americana, só para aferir se o místico do Abdo ecoava naquele ponto. Era outro cenário, sim, mas com a mesma mágica: jovens, olhares furtivos, casais que se formavam na calada da tarde e o ponto de encontro que servia de farol para a vida toda.
Houve momentos em que o silêncio se impôs na roda. Na faixa três, o Sarapo canta sobre o Zé Maria, um volante de chuteira destemida que namorava às quintas, mas devastava o campo. Olhei para os rostos envelhecidos dos meus amigos e vi o Edil, o craque de Venda das Flores, que partiu cedo demais, levando consigo as histórias de boleiro e camarada. Já na faixa Amigos, o ar pesou de um jeito terno. Lembrei do Professor Nézio e, por um instante, não soube se a lágrima que escorria pela minha face era de alegria pela lembrança ou de saudade pelo mestre das primeiras cestas, pelo professor que nos guiava nos banhos de rio no Santo Antonio.
Mas foi em Bailes que o abraço geográfico se completou. Santa Bárbara e Miracema, distantes no mapa, tornaram-se cidades-irmãs na crônica da juventude.
— “Escuta, moço, o que você tem no bolso?” — recitei para os amigos.
A risada foi geral. Aquilo era o nosso Grêmio! Parecia o velho Edmundo, implacável nos bailes, rondando o salão como um espectro disciplinar, de olho nas vergonhas alheias. E quando Sarapo ironizava o risco de dançar com um “drops Dulcora no bolso”, a gente ria do absurdo, porque era um absurdo que a gente vivia. Aquela alma de guri, de quando batíamos um pinho nos bancos do jardim após cabular a aula, saltou do CD para dentro das nossas veias.
Ser um menino dos anos 50/60, percebi, é um privilégio de quem aprendeu o valor do riso antes da dureza do mundo adulto.
Para encerrar o ritual, encostei a cabeça no encosto da cadeira enquanto Alto Falante 9 de Julho ocupava o ar. Era o Cine Sete, o cineminha do Zé de Assis, o som do Jorge Ripada ecoando pela Praça Dona Ermelinda. Fechei os olhos. Ali, entre o Mocinho e o Nicanor, entre boleros e alto-falantes, aprendi a vida.
Abri o jornal para escrever essas linhas e olhei, uma última vez, para a capa do CD. Sérgio Augusto Sarapo não cantou apenas para Santa Bárbara do Oeste; sem saber, ele escreveu o hino não oficial de Miracema. E, de onde estiver, que receba o meu abraço, o do Zé Boquinha e o de todos nós, conterrâneos de um mesmo sonho. A música parou, mas a infância? Essa, graças ao Sarapo, ainda está aqui, brilhando na nossa vitrola interna.
Comentários
Postar um comentário