O calor em Campos dos Goytacazes, nesta segunda-feira, não pedia apenas um ventilador no máximo; pedia uma trilha sonora que fosse, ao mesmo tempo, um refúgio e uma lembrança. Enquanto o ar parado e denso pairava sobre a cidade, abri minha playlist, não por acaso, mas por um convite da saudade que mora no peito, para ouvir a voz que moldou parte da minha alma.
Às vezes, as pessoas olham para quem ouve a Jovem Guarda com certa condescendência, quase um sorriso irônico que sussurra "lá vem ele com esses Sonhos de Palhaço". Pouco importa. Para quem conhece, Antônio Marcos não era apenas um cantor; ele era o tradutor de um certo estado de melancolia agridoce que, contraditoriamente, nos faz sentir muito vivos.
A tarde, em sua letargia habitual, me fez flutuar naquela pergunta suspensa: Por quem chora a Tarde?. Será pelo sol que se esconde em Campos, ou pelas escolhas que, com o passar dos anos, aprendemos a fazer? Enquanto o pensamento corria, revisitei a imagem de um jovem na igreja, lá em Miracema. Lembrei do conflito, da "bronca" que recebi de um dos padres de tempos idôneos, que não viu com bons olhos — ou talvez não tivesse ouvido sensível o suficiente — para permitir que nosso coral entoasse a "Oração de Um Jovem Triste" durante a formatura daqueles jovens.
O vigário pode ter proibido a nota musical, pode ter tentado silenciar a prece, mas esqueceu que, uma vez que uma canção se torna oração, ela sai da partitura e passa a habitar o fundo do coração. Ele proibiu a cerimônia, mas não o sentimento. Guardei a mágoa ali, onde o tempo deposita o pó das experiências, e deixei o perdão fluir, simples e desimpedido. Afinal, se o Homem de Nazaré — que muitos confundem, mas todos buscam em horas de sol a pino — perdoa as falhas humanas, quem sou eu, um mortal de tranças e memória, para reter a culpa de um padre que apenas seguia a rigidez do que acreditava ser correto?
Nesta segunda-feira quente, ao dar play novamente, percebi que, muito mais do que lamentar, eu estava ali celebrando. Deixei que a música envolvesse o ambiente enquanto alguém — talvez a tal Menina de Trança que observa a cena, ou apenas um eco de minha própria consciência — perguntasse: "Como vai você?".
Respondi para o vazio da sala, com um sorriso leve nos lábios. Não estou triste. Não preciso agora, nem aqui, confessar pecados ou rogar favores ao Divino. Hoje, estou apenas acompanhado. Acompanhado pela elegância dos arranjos de uma época em que o amor era, por vezes, contrito e, noutras, abertamente confesso.
Antônio Marcos me deu, ao longo da vida, palavras para dizer coisas que eu, sozinho, jamais saberia como arrumar. Entre o suor que brota na pele nesta segunda campista e as memórias de um coral em Miracema, encontrei uma espécie de paz. "Se eu pudesse conversar com Deus" — ah, que irônico pensar na letra enquanto escrevo isso —, talvez o diálogo fosse exatamente sobre a gratidão de ter tido uma voz para nos embalar.
E tudo bem. O dia termina com um calor que cansa o corpo, mas que, sob a trilha certa, descansa o pensamento. As músicas estão aí, na minha playlist e na memória coletiva de quem, um dia, precisou ser um pouco poeta, um pouco triste e, acima de tudo, um pouco inteiro diante de um microfone ou de um altar proibido.
Antônio Marcos, o "Menino" que se foi cedo demais, segue presente em cada frase que insisto em não calar. E hoje, minha conversa foi apenas uma escuta atenta, uma prece secular que ele me ensinou a cantar.
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