Lá em cima, o ar era diferente. A neblina tinha um tom dourado de fim de tarde de dezembro e, nas nuvens mais altas, pairava uma saudade palpável, um perfume de grama cortada que trazia de volta o barulho da arquibancada e a magia de um domingo de pelada. Lá embaixo, na Terra, o pessoal ainda comemorava as festas, brindava e fazia barulho; um contraste que feria a nostalgia dos veteranos do escrete celestial.
Jair Polaca, o anfitrião, estava deitado em sua nuvem particular. Ali não faltava nada: o samba corria solto, o cenário era de uma praia eterna e ele até mantinha um campinho particular, bem demarcado, só esperando a redonda rolar. Sentindo que a turma estava com saudades, ele sacou o celestial aparelho e disparou o chamado para Milton Cabeludo: "A coisa vai ferver por aqui, preciso de um papo cabeça no meu cantinho".
Cabeludo, figura central da crônica boleira, atendeu sem pestanejar. Em sua carona subiram Juarez Beiçola e outros daquela estirpe. Pelo caminho, não puderam ignorar o Pernoca e o Lauro, que proseavam ao redor da nuvem de Silvinho — que, na verdade, tinha dado um pulo para visitar o pai, Maninho. Encontraram o Maninho justo no momento em que ele analisava a lista dos próximos craques que o São Pedro autorizava a subir para bater uma bolinha.
Quando Maninho chegou ao QG de Polaca, a nuvem já estava um alvoroço. Polaca, vendo que a reunião saía do seu controle organizado, já ligava para Gérson Coimbra. O homem chegou com o peso de quem já vestiu camisas pesadas, botou ordem no galinheiro e começou a dividir tarefas. "Cadê o Clarindo?", bradava Coimbra, pois precisava da mão direita para tocar a orquestra daquele encontro épico.
A notícia voou pelos éteres. O craque Pintinho, com aquele seu passo lento, elegante e magnético, chegou na maciota. Chamou Nenenzinho, que avisou Edil: era dia de jogo grande. Nenenzinho, o espírito da festa, queria logo saber se, terminada a partida, poderia improvisar uma fantasia de "mulinha" e girar pelas nuvens evocando o velho "Fogaréu".
Cosme não deixou passar: "Nem pense! Se vai ter samba, chama o Zé do Carmo, que o cara está preocupado com o placar de hoje!". E de dentro da roda, uma voz calejada no comando de baterias carnavalescas disparou: "Samba é comigo! Mocinho e Fota já estão prontos, é só mandar tocar!".
A cena era surreal. Jogadores e cartolas chegavam sem chuteiras, sem bagagens, a alma leve. Polaca girava seu Livro de Ouro, aproveitando a oportunidade para colher contribuições com velhos conhecidos de prefeitura, como Jamil Cardoso, Zé Carvalho e Nilo Lomba. Maninho, agindo como diretor de futebol, buscou Olavo Monteiro para dar aquela cadenciada no meio-campo, reforçado por craques da capital convocados pelo Caixa D’água, sob o selo de garantia de Luiz Linhares.
O trio do Rink — Silvinho Moreno, Valcir Leite e Marcone Daibes — não perdeu tempo e escalou o João Moreno e o sobrinho Joltran, duetos clássicos dos gramados do Ginásio. O problema começou quando o campo ficou pequeno para tanta estrela. E quem apitaria? Pensaram em trazer um nome neutro de outra esfera, mas o orçamento celestial estava curto para apitadores famosos. A solução? Entregar o apito ao Rosário Mercante. O cara sempre teve postura, um juiz daqueles de respeitar a autoridade, sério na medida certa.
Enquanto isso, nos bastidores, a confusão típica de bastidores se formava. Caixa D’água tentou fundar a "Liga das Nuvens", mas Luís Delco barrou na hora, alegando que "estranho no ninho não entra". Salim Bou-Issa foi acionado para organizar, mas Altair Tostes, num lance rápido, decretou: "reunião de colunas!". Farid Salim, junto com seus manos — José, Nacif e Jofre — assumiu a logística da mesa farta, enquanto o jovem Gustavo Rabelo foi o guardião das camisas e o zeloso mantenedor das súmulas.
O time era imenso, onze de cada lado, mas a rotatividade seria alta. Não importava se fosse apenas para jogar cinco minutos, a glória estava em estar em campo. Diante da superlotação de craques querendo o protagonismo da rede, os técnicos resolveram o imbróglio à moda antiga: um "Torneio Início" daqueles que todo mundo já viu.
E no dia de Natal, quando lá embaixo a correria cessava e as luzes se apagavam, lá em cima, nas nuvens do Polaca, a bola rolava macia. Não era um jogo qualquer. Era uma pelada eterna, celebrando o tempo que passou, a bola que nunca parou de quicar no coração de cada um deles e a festa que, desta vez, era exclusiva dos eternos craques.
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