A noite caía sobre Miracema com aquele frescor nostálgico que só as cidades de interior parecem guardar no DNA. Na minha sala, o vinil mental girava sem parar enquanto conversava com o Marco Aurélio Motta. Entre um gole e outro, o papo flutuou de volta para os anos 1970, aquela era de ouro onde ele, com seu porte elegante nos salões do Automóvel Clube Fluminense, e eu, tentando a sorte nos bailes do Grêmio do Nossa Senhora das Graças, formávamos uma geração que batia sola de sapato ao som de Elvis, Beatles e Roberto Carlos.
Mas a nossa conversa deu uma volta peculiar quando a playlist "Músicas de Parque de Diversões" começou a rolar no Spotify. Marco me olhou curioso. Não era apenas música; era a trilha sonora de um tempo em que um sonho "pousava" em Miracema e se instalava na praça, bem em frente ao colégio na Avenida Nilo Peçanha.
Para o jovem que eu era, aquilo não era apenas um parque; era a minha central de comando. Naquelas cabines de som rústicas, sob luzes coloridas e o cheiro de algodão-doce, eu controlava os batimentos cardíacos da cidade. A dinâmica era simples: um Cruzeiro por canção, eu ficava com a metade, e o poder de ditar o destino romântico dos outros estava literalmente na ponta dos meus dedos.
Lembro-me, como se fosse hoje, do bordão que ecoava no alto-falante: "Alguém oferece à menina de vestido verde, que está no Balanço Veneziano, 'Sonhar Contigo' de Adilson Ramos". Eu via, de dentro da minha gaiola sonora, a moça girar o pescoço, procurando entre a multidão aquele rosto desconhecido — ou quem sabe, secretamente desejado — que a havia escolhido para ser protagonista daquela trilha.
E teve o caso clássico de Antônio e Maria. Eles estavam na corda bamba, prestes a seguir caminhos opostos, quando o rapaz me procurou, num gesto de desespero romântico. Lancei a carta na mesa: "Negue", de Nelson Gonçalves. A voz dramática de Nelson rasgou a noite da praça. Maria, paralisada, caminhou até a cabine. "Quem pediu?", ela perguntou, o olhar ansioso. Eu apenas apontei com o queixo em direção ao Antônio. O desfecho? Um beijo selou a paz, e dizem as crônicas da cidade que eles nunca mais se soltaram. Fui o cupido improvável de uma valsa de par único.
Mas a astúcia — ou a ousadia de estudante — ia além do amor profano. Lembro da vez em que, na terceira série do ginásio, a prova de Geografia da professora Nerilda Alves ameaçava minha integridade escolar. Eu estava lá, na cabine, em pleno horário de trabalho, quando a vi caminhando em direção ao colégio.
Sem hesitar, lancei no microfone: "Um aluno que não pode estar na prova de Geografia por estar cumprindo o seu dever aqui no parque, oferece à professora Nerilda, como sinal de respeito e admiração, 'A Noite de Meu Bem', de Dolores Duran".
A música preencheu a pracinha, suave e inconfundível. Se ela gostou? Nunca conversamos sobre isso, mas, na semana seguinte, a prova foi aplicada. Quando recebi o teste de volta, lá estava ele: um "dez" bem maiúsculo e, claro, um silêncio cúmplice e respeitoso. Era um código entre educadora e aprendiz, mediado pelo encanto de um refrão.
Enquanto a música terminava na nossa sala, Marco Aurélio riu alto, rememorando aquele desfile de nomes: Waldick, Lindomar Castilho, a voz inconfundível de Reginaldo Rossi com Mon Amour, mon bien ma femme, e a presença constante de Roberto Carlos, o rei absoluto daqueles terreiros iluminados.
Olhei para o Marco e sorri. Talvez os parques tenham mudado, as pracinhas se modernizado e o formato da entrega da música tenha se digitalizado. Mas a essência do "pé de valsa" é imortal. Naquela noite, em Miracema, nós não estávamos apenas ouvindo música; estávamos rebobinando a vida, a meio Cruzeiro de distância de cada lembrança feliz.
Comentários
Postar um comentário