A pergunta sobre a Rua Direita nunca foi, de fato, um dilema topográfico; sempre foi um exercício de memória e geometria do coração. Os versos de Luiz Carlos e Chiquinho, imortalizados por Os Originais do Samba, tinham esse poder: transformavam o asfalto poeirento ou o paralelepípedo reluzente do interior — seja na nossa Miracema, seja em qualquer esquina deste Brasil de ontem — em um palco infinito de encontros adiados.
Na nossa juventude, a Rua Direita não era medida em metros, mas em intenções. Para quem subia, o lado direito era o palco das conquistas, a vitrine onde as certezas morriam e o nervosismo começava. Mas, se mudássemos o sentido, a própria estrutura do universo parecia se dobrar: quem descia via o mundo sob uma ótica invertida. O que era "o lado de lá" transformava-se, num passe de mágica física, em "o lado de cá". A dúvida existencial que os autores do samba deixaram no ar — afinal, onde fica o outro lado da Rua Direita? — é, na verdade, uma metáfora para a distância que existe entre quem somos e quem queremos ser.
Nós, os setentões, carregamos essa Rua Direita tatuada no caminhar. Lembro-me de cada vez que ela aparecia, o rosto iluminado por aquela luz dourada das quatro da tarde. Aquele não era um momento qualquer; era um ritual. Cada menina que cruzava o nosso horizonte despertava a mesma hesitação, o mesmo ensaio de abordagem que morria na garganta. Faltava-nos a "coragem adulta" — um paradoxo adorável: queríamos ser grandes antes do tempo, mas éramos, fundamentalmente, reféns de corpos juvenis que tremiam diante da hipótese de um simples "olá".
Quantas vezes eu parei na frente das vitrines, fingindo observar relógios ou gravatas, quando, na verdade, eu apenas compunha uma moldura estática para ela passar? Se era o lado direito ou o esquerdo, que importância isso tinha? O que importava era a coreografia do silêncio. Eu nunca me enganei; sabia, com uma nitidez que a maturidade costuma roubar, que era ela. Mas o meu lado da rua era o da indecisão. Enquanto eu admirava o reflexo do seu passo nos vidros coloridos, perdia a oportunidade de fazer parte do seu caminho.
Hoje, sinto uma vontade urgente, quase física, de retornar à Rua Direita. Não pela via pública em si, que talvez tenha perdido suas cores ou trocado de nome, mas pelo desejo de redescobrir a posição exata daquela vitrine. Quero ver se, olhando agora com os olhos de quem já viu tanto, consigo entender se o "outro lado" era, afinal, um abismo ou apenas o lugar onde ela esperava que eu criasse coragem.
Talvez o segredo de toda Rua Direita não esteja na geografia, mas no que deixamos de fazer. E talvez, lá no fundo, todos nós saibamos: o "outro lado" é aquele onde a gente habita quando olha para trás, perguntando-se como teria sido se, naquele dia, em vez de fingir observar vitrines, tivéssemos simplesmente cruzado a calçada.
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