Paris não costuma pedir licença para demonstrar suas emoções, e naquele dia em que meus pés tocaram seu solo pela segunda vez, a cidade parecia guardar mágoas profundas. Não foi uma chuva de verão, passageira e clemente. Foi um pranto ininterrupto, um despejo cinematográfico que transformou as avenidas em espelhos líquidos e as luzes da tarde em borrões melancólicos de âmbar.
Haveria de ser a invasão dos turistas? Aquela horda persistente, armados com suas câmeras de lentes desproporcionais e flashes incessantes, dissecando cada estátua como se buscassem um segredo escondido sob o mármore? Talvez fosse a fadiga histórica de ser constantemente o objeto de desejo alheio. Ou, quem sabe, minha intuição poética estivesse mais próxima da verdade: a cidade, com sua vaidade intrínseca, apenas quis provar que não precisava de um sol impecável para sustentar seu mito. Paris queria que eu soubesse que, sob o manto pesado de uma tempestade, ela não morre; ela apenas se torna mais profunda, mais austera, quase como uma musa de filme noir.
O grupo de brasileiros que comigo seguia não se deixou dobrar pelo rigor dos céus. A ordem, tacitamente aceita, era sagrada: ignorar o conforto morno do hotel e a conveniência dos bares protegidos. Nós queríamos o impacto. E assim, de guarda-chuvas que mal suportavam a ventania, refizemos o city tour que eu memorizara em 2008.
É fascinante como o "repetido" se recusa a ser igual. Se a primeira vez foi um banho de sol dourado de outono, desta vez a experiência era visceral, bruta. As fachadas haussmannianas, sob a água cinzenta, adquiriam uma gravidade aristocrática que o sol de outrora escondia. A Torre Eiffel não era apenas uma estrutura de ferro; vista através das cortinas de água, ela pairava como uma entidade etérea, uma divindade indiferente à finitude humana. Imponente. Intocável. O tempo lá embaixo passava, mas a Torre apenas testemunhava.
Mas o roteiro de uma viagem é feito de encontros, e Paris reservou seu melhor truque para a noite. No Hotel Ibis Bastille, em meio ao barulho dos pratos e conversas em línguas estrangeiras, a voz conhecida nos puxou de volta ao aconchego de casa: "Conheço vocês de algum lugar". Eram outros brasileiros, vindo de Campos. O riso compartilhado na mesa selou um pacto: Paris, naquele segundo, tornara-se Campos. A geografia geográfica perdeu a relevância diante da geografia dos afetos. O mundo, sempre astuto em ser menor do que pensamos, tinha nos colocado ali para que o grupo ganhasse um novo peso, uma nova cadência.
Dali em diante, o roteiro foi o pretexto. A essência tornou-se a caminhada, a partilha com o Carlos, o Fábio, e a condução segura do Paco, com o sorriso e as direções da Beatriz. Subir a Torre finalmente, lá do topo, vendo a cidade desenhar suas próprias linhas na bruma, me deu a clareza definitiva. Paris é cantada em tantos versos não apenas pela sua estética, mas pelo ritmo que impõe. Entendi o porquê de sentar num café com um expresso não ser desperdício de tempo: era a apropriação do tempo.
Depois do terceiro dia, o céu lavou a face, limpou-se e entregou um horizonte quase transparente, como quem estende uma toalha de linho branco em pedido de desculpas por ter chorado demais.
Mas, ao ouvir os primeiros acordes da voz de Édith Piaf sussurrando “Sous le ciel de Paris”, compreendi. A chuva, o sol, os estranhos de Campos, a pontualidade do grupo — tudo era parte da mesma coreografia. Os apaixonados — pela cidade, pela vida, pela jornada — caminhavam sobre o pavé molhado com a mesma elegância de quem caminha sob o sol. Paris chora, Paris ri, Paris se expõe. E, independentemente do tempo, ela continua nos convidando a caminhar.
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