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O Diálogo com o Plínio de Barros
A entrada no Plínio Bastos de Barros nunca foi apenas atravessar um portão. Era um ritual. Eu, pequeno, protegido pelas mãos grandes do Nijel ou pela cadência apressada do Alvinho, entrava ali sentindo que aquele chão não era terra batida: era o solo onde o futuro era ensaiado. Naquela época, o "velho moço" era mudo para os meus ouvidos, mas já entendia tudo o que meu silêncio clamava. Eu sonhava em chuteiras, enquanto ele — este touro de gramado e cal — apenas me observava crescer.
O estádio foi a moldura da nossa inocência. Ali dentro, o tempo corria de um jeito que a gente acreditava que duraria para sempre. Vi Lauro Carvalho fazer do drible uma arte litúrgica, vi Milton Cabeludo ser o deus da nossa meninice, e o Tupan, com Zebinho à frente, marcar território. Ali, o impossível era apenas uma bola que entrava no ângulo, e o destino parecia ser o gol.
Depois, veio o tempo em que o futebol parou de ser poesia e virou sobrevivência. Os anos 70 não foram apenas um recorte no calendário; foram a virada da chave para a vida adulta. Deixamos de ser apenas sonhadores para nos tornarmos homens, enquanto o estádio, imponente e calejado pela história, continuava ali, observando. Ele viu de tudo: a barbárie de 1964, quando as máquinas da Exposição Agropecuária quase nos tiraram a alma ao rasgar o gramado; e a magia de um Flamengo de meninos, quando Gerson pisou em nosso chão por causa de um sonhador chamado Jofre Salim.
Quando olho para o Plínio Bastos hoje, vejo muito mais que estruturas físicas. Vejo o Polaca, a personificação da bola em Miracema, alguém que mereceria o bronze por tanto zelo e amor ao ofício. Vejo a voz dos amigos — Zé Luís, Chico David, Fernando, Paulo e Wellington — reverberando na laje, espalhando nossa paixão pelos ares do rádio.
A partida estava prestes a terminar, o sol caía sobre o vestiário e as sombras aumentavam. O "velho" estava ali, firme, desafiando o meu cansaço. Tentei me despedir, pronto para as críticas de quem, ao me ver, acharia que a idade finalmente me deixou falar sozinho com as arquibancadas vazias. Mas, quando virei as costas para sair, o ar não foi apenas vento. Foi voz. Foi memória. Foi o estádio, reconhecendo em mim o mesmo menino que ele embalou décadas atrás.
— Vá com Deus, Penacho.
Eu me permiti o luxo das lágrimas. Afinal, não é todo dia que um templo, feito de ferro, sonho e suor, se digna a se despedir de um amigo. Eu fui, com a alma um pouco mais leve, sabendo que, enquanto o Plínio Bastos de Barros estiver de pé, o tempo jamais terá a vitória final sobre as nossas melhores lembranças.
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